3.7.09

fora da gaveta


"por isso, eu saio. deixo o apartamento vazio, caminhando pela cidade cinza. tentando montar meu quebra-cabeça incompleto. atrás da última peça. sabendo que o caminho até ela pode começar por um desses. por isso, eu não desisto. pode ser por qualquer um. apenas seis passos. apenas seis casas a ser andadas sobre o tabuleiro depois dos dados lançados. seis obstáculos a ser saltados. seis fios de uma longa teia. seis degraus até a chegada ao topo. seis muros a ser derrubados. seis graus de separação."


[trecho de fios de teia, conto para a revista continuum, do itaú cultural, deste mês]

22.6.09

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se quiser me seguir, venha: @baszczyn

4.6.09

fantoche


sua mão retirada de repente e o fantoche, agora, sem vida. o boneco que animava o seu teatro, agora, um pedaço de pano. tecido esquecido. de volta pra caixa. mais uma vez, de uma hora para outra, o vazio por dentro. sua ausência me transformando em trapo.

29.5.09

para a serra, então


"um grande encontro reúne, neste fim de semana, escritores renomados para conversar com o público sobre suas obras e sobre literatura em geral. o objetivo é incentivar o prazer da leitura, possibilitando o contato com autores e livros. nos dias 29, 30 e 31 de maio de 2009, a secretaria de estado da cultura promove a segunda edição do 'festival da mantiqueira – diálogos com a literatura', na aconchegante são francisco xavier, a 138 km de são paulo, que será o cenário para o encontro entre autores de destaque da atualidade e o público. no sábado, dia 30, haverá dois encontros entre os finalistas do prêmio são paulo de literatura 2008. o primeiro deles, com os finalistas do melhor livro do ano: beatriz bracher, menalton braff, wilson bueno e cristovão tezza (vencedor 2008); e o segundo, com os finalistas na categoria melhor livro de autor estreante: cecília giannetti, tiago novaes, wesley peres, eduardo baszczyn e tatiana salem levy (vencedora 2008). os dois encontros terão mediação de manuel da costa pinto. participam também do evento luis fernando veríssimo, luiz alfredo garcia-roza, boris fausto, xico sá e escritor português miguel sousa tavares."


[texto completo e outras informações aqui]


12.5.09

armadilha


há dias em que não adianta correr. há refúgios aparentemente tranquilos que, de repente, se fecham como armadilhas. vivemos entre ratoeiras.

28.4.09

dia


desde que foi embora, o mesmo ritual: caixa sobre colo, eu tiro o laço, desfaço a fita, jogo a tampa. e não me animo com o presente. desde que foi embora, eu apenas desembrulho o meu dia. sem etiqueta de troca, não sei o que faço com ele.

15.4.09

clarice l.


"sempre tive a sensação de mal-estar no mundo, uma sensação de não caber no meu espaço, um desconforto diante de meus pares – eu me pergunto: tenho pares? eu sabia que em mim há uma mulher que tento esconder ferozmente. tenho medo que as pessoas identifiquem meus excessos, essa quantidade absurda de pernas e braços que camuflo sob a roupa que visto. o que diriam se soubessem das muitas que vivem em mim e tentam bravamente, numa luta corporal, projetar-se do meu corpo? tomariam-me por uma aberração?"

6.4.09

fuga



durante a ida, vou trocando os sapatos para confundir sua busca. deixo pegadas falsas para que nunca mais me encontre. durante a ida, olho para trás e não reconheço meus rastros. na fuga, me perco de você e de mim.

27.3.09

ana cristina cesar


"escrevo por não poder dormir tranquilamente. faço um texto ruim, submerso em sono, pouco alerta. preciso me esgotar para ir à cama sem lembrança. escrevo para limpar-me?"

12.3.09

mosaico


é que às vezes é impossível transformar a dor em beleza. montar com ela mosaicos coloridos. lindos. às vezes, cacos devem permanecer cacos. pequenos pedaços, separados para sempre, depois da queda que os criou.

2.3.09

caio f.


"chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso."

25.2.09

quarta-feira


é pelo medo que muitos não voltam para abrir o porão. andar pelo silêncio. tatear pelo escuro. guardar tudo em caixas. é por causa do medo do cômodo, sempre trancado, que muitos permanecem fantasiados. máscaras cobrindo o verdadeiro rosto mesmo depois dos dias de alegria.

13.2.09

sobre o livro

encontros e desencontros

“- i have to be leaving
but I won’t let that come between us, ok?”
- ok!”

é engraçado quantos destinos podem ser traçados a partir de uma única pessoa. imagine, então, seis pessoas entrelaçadas de alguma forma, entre amor e amizade. se colocarmos um sinal de exclamação perseguindo cada uma, quando multiplicado, onde iríamos chegar? alguém sabe o resultado de 6!? talvez eduardo baszczyn, autor de
desamores, publicado pela 7letras e um dos finalistas do 1º prêmio são paulo de literatura, na categoria melhor livro de 2008 (autor estreante) saiba bem o resultado. desamores não levou a bolada de 200 mil do prêmio, porém, mesmo sem os louros, o livro é cheio de méritos. é uma obra tão delicadamente acabada e sensível que, no meio dos encontros e desencontros de cada personagem, todos unidos num núcleo, não há como não nos encontrar entre os diálogos permeados por farpas, nas situações que parecem xerocadas de nossas vidas, na forma como as coisas acontecem, enfim, nos relacionamentos daqui ou lá do outro lado do globo. o livro conta a história da relação de ana e caio lá pelos seus trinta e poucos e uns quase dez anos de casados. bárbara é a amiga que todos temos, ou teremos: um casamento arruinado e não esquecido que leva à psicoses, deprime e afeta os que estão ao redor. bruno e júlia são outro casal, amigos de caio e ana, que podem estar à espera de um unhappy end. adriano existe para curar dores e procurar outras. e está pronta a trama, contada em flash-back, acompanhada por uma garrafa de vinho e as luzes de são paulo, que maquiam e escondem as dores de cada um entre quatro paredes, por toda cidade, dentro de cada apartamento. desamores é um livro gostoso de ler muito por conta das adversidades que existem dentro desses relacionamentos e das associações que inevitavelmente fazemos. é difícil não rememorar nossos próprios passos, não tentar identificar semelhanças entre a “ana do começo” e nosso eu, não querer entender onde erramos e levar a cabo as soluções apontadas por caio. difícil não se pôr em xeque como bruno e arquitetar planos mirabolantes feitos por júlia. o mais complicado é, em muitos momentos, ser um cafajeste feito adriano e triste como o livro de eduardo. mas, uma tristeza boa, daquelas que constroem e só existem pelo acaso, pelas palavras não ditas a cada dia, pelos cafés que não servimos, por um pouquinho de egoísmo diário para com o outro e, no final das contas, porque não pensamos muito no futuro. os desamores de cada um movem uma trama que, não tão recheada de surpresas – fica tudo muito fácil de entender e prever porque enfim – leva o leitor ao prazer de folhear o livro no final da leitura. voltar a fatos. tentar entender como e porquê tudo se passou daquela forma e naquele momento não encontrarmos saídas para um final, como nós mesmos fazemos após um fim de expectativas, após um amor jogado por algum lugar. são amores que foram e só existem da forma como existem ainda dentro de nós porque filmes, músicas - como as que o autor joga pelo livro - e livros como o de eduardo afirmam essa relação que temos com a perda, com as possibilidades, com a dúvida e por que não com o coração. desamores está aí para afirmar toda uma cultura, e para fazer dela um jogo mais e mais delicioso e apaixonado.


[uma crítica, publicada recentemente, por haroldo lima, em um jornal de vitória, es]

6.2.09

ferida


a que tamanho chega a ferida? o corte que você fez e não voltou para soprar. a que tamanho chega o rasgo deixado sem curativo? aberto. abandonado. quanto ainda cresce um buraco que já foi milimétrico? um pequeno traço. a que tamanho chega uma ferida regada todos os dias? cultivada por alguém como se fosse flor.

26.1.09

escuro


volto para a janela e é outro o céu. o vento sempre carrega o cinza com ele. para longe, depois da chuva. volto a me olhar por dentro e é o mesmo o escuro. não muda. em mim, com tudo fechado, o vento nunca entra, depois da tempestade.

22.1.09

clarice


"às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. é que ao escrever eu me dou as mais inesperadas surpresas. é na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia"

25.12.08

natal


quando todos me deixaram sozinho na sala, finalmente, pude me aproximar. tirar os enfeites. os laços. fitas. as lâmpadas. arrancar os galhos artificiais, um por um. quando todos me deixaram sozinho no meio da noite, finalmente, pude ter certeza: debaixo de tudo, um cacto. todos os anos, nós apenas escondíamos os espinhos.

16.12.08

exagero


por que tanto? você pode me desejar noites em claro, mas não precisa me obrigar a dormir em uma cama de pregos. você pode rasgar a minha pele, mas não precisa jogar sal em cima das feridas. pode me triturar aos poucos, mas não precisa soprar no vento aquilo que sobrou. você pode me fazer andar sobre o pântano, mas não precisa colocar uma carga sobre os meus ombros. você pode me atirar no mar, mas não precisa amarrar um peso em um dos tornozelos. por que tanto? você pode apenas me levar até o abismo, mas não precisa me empurrar. você pode apenas sumir para sempre, mas não precisa me dizer que, de repente, deixou de amar.

3.12.08

castigo


eu continuo aqui. apesar de ter enchido a lousa com a mesma frase, de ponta a ponta. de cima até embaixo, ouvindo risadas e cochichos. sujando de giz as pontas dos dedos. a mão. o uniforme. pagando o castigo com as bochechas vermelhas. suando por dentro. vergonha. eu permaneço aqui. com o gosto de sabão na boca lavada. com o amargo do palavrão tirado na marra. eu continuo no mesmo lugar. joelho marcado no milho. palma da mão roxa de régua. orelha torcida. tudo pago e eu aqui. esquecido. de cara pro canto. nariz na parede. e esse medo enorme de me virar e ter certeza de que todos foram realmente embora.

17.11.08

semente


na dúvida, eu ainda cultivo. rego esse pequeno amor todos os dias. é preciso esperar que o broto cresça. na dúvida, é preciso provar para saber se a planta é daninha.

16.11.08

desamores no metrópolis